A premissa de Come Play pode parecer um clichê dos nossos tempos: uma criança que é perseguida/sequestrada por um demônio que vive dentro dos aparelhos eletrônicos. Mas rapidamente o filme se distancia de qualquer representação figurativa e crítica simbólica dos nossos tempos: Oliver não é uma criança comum viciada em tecnologia. Ele é autista não-verbal, por isso está sempre com seu celular para usar os AAC (auxiliares de comunicação), ou assistindo ao Bob Esponja, o desenho que traz-lhe conforto.
Também subvertendo a expectativa, o demônio não tem nada a ver com as redes ou programas que Oliver utiliza nos aparelhos: ele invade as telas como um vírus, forçando quem está do outro lado da tela a ler sua história ilustrada.
Para mim essas inovações/fugas do lugar comum agregaram muito valor ao filme, extinguindo qualquer noção de previsibilidade. Demora, inclusive, boa parte do filme até descobrirmos que o demônio se transporta utilizando a eletricidade — de modo que o suspense se constrói de maneira muito legitima, sem contar com a nossa expectativa “do que está para acontecer”. A força do terror na obra está no fato de que, mesmo com tantas surpresas, nada parece fugir do universo do filme (quer dizer, nada dá a impressão de ser ‘forçado’).
Além de seu valor como construção de terror e suspense, Come Play teve o cuidado de apresentar um personagem autista diferente, conectado com algumas demandas de representatividade da comunidade. Isto é, alguém que tem um nível de inteligência normal, ao mesmo tempo que é não-verbal e tem necessidades especiais evidentes (assistente em sala de aula, acesso aos desenhos para se acalmar, etc). Ao invés de – como é mais comum – utilizar a pessoa autista como muleta para conduzir aspectos da trama, apoiando-se unicamente na dificuldade de comunicação para transmitir a vulnerabilidade e causar apreensão. O personagem de Oliver é o centro da trama, é perseguido pelo demônio por ser solitário, é vítima de bullying: ao mesmo tempo que não é completamente isolado ou odiado pelas crianças da sua idade — como seria o lugar-comum desse tipo de história e que é uma representação completamente irresponsável, pois naturaliza que as pessoas deficientes vão naturalmente ser excluídas —. Para nossa surpresa, o antigo amigo de Oliver, que vinha tratando-o mal, ainda queria ser seu amigo, e ressentia o abandono.
É claro que a visão da personagem autista poderia ser ainda mais aprofundada, por alguém com conhecimento dessa experiência de vida, explorando outras dimensões do terror ou do drama; ainda mais em uma produção audiovisual, que não depende somente da fala/diálogo para desenvolver a narrativa. Mas, no fim das contas, a escolha foi fazer a mãe dele (Gillian Jacobs) coprotagonista, de modo que a divisão da experiência subjetiva entre os dois acaba deixando o espectador menos engajado com somente um personagem, exigindo, assim, menos profundidade. Acabamos, dessa forma, aceitando com organicidade que o filme conta a história dessa família, de modo que quando o pai assume o papel central, na conclusão, é natural para o espectador continuar envolvido sem se sentir “traído” pela obra.
O roteiro é certamente um aspecto que se destaca em Come Play, mas o que não deve diminuir a força imagética do filme, que consegue ser realmente assustador.