O clássico de David Cronenberg costuma ser considerado um filme “obrigatório” para os cinéfilos em formação. Em especial para quem gosta de cinema de gênero.
Parte da força do filme está nos efeitos práticos escatológicos, muito bem feitos e capazes de provocar reações viscerais; mas não reside apenas aí. O horror da desconfiguração do corpo humano, tornando sua consciência subjulgada a outra forma de existência – que já foi tema do diretor também em Videodrome – é a temática cuidadosamente explorada pelo filme na imagem, com a decomposição do corpo do protagonista, como também no texto e nas ações, com a destruição contínua de sua personalidade/humanidade, sendo substituída pela violência.
Contudo, assistindo ao filme agora, o incômodo com a personagem feminina é constante. Me faz pensar sobre quais os filmes que são colocadas no pedestal. Como disse uma colega minha, estudiosa de crítica de arte: a crítica cinematográfica é constituída por homens elogiando homens.
Muitas vezes o argumento, ou o senso comum, é de que essas obras são as melhores entre o que existia ou existe no gênero, de modo que ganham notoriedade acima de qualquer outra porque, mesmo com representações problemáticas, é melhor do que o que existe.
Só falando sobre isso me vem à mente American Mary de 2016, um dos filmes mais gore que já assisti, que é puro discurso antipatriarcal. Não vi esse filme ganhar notoriedade nenhuma. Quantos mais devem existir por aí?
A MOSCA constrói o terror em cima de um enredo de ficção científica e, como é comum no gênero, é necessário que a forma de funcionamento que explica o sobrenatural/irreal – ou seja, a parte científica – seja explicada em algum momento. Para isso, o artifício utilizado (que é um recurso comum e imprescindível no roteiro) é a existência de um personagem que precisa escutar essas explicações, para que, então, o espectador também as escute.
O mais natural e aceitável, claro, é uma personagem mulher que, mesmo tendo um emprego que exige capacidade intelectual (ela é jornalista), é uma anta. Não entende nada.
Eu disse, inicialmente, que o personagem de Jeff Goldblum, o protagonista, deteriora ao longo do filme. Mas, é importante notar que para o roteiro funcionar, ele é extremamente arrogante desde o início. Esse filme podia ser dado em cursos sobre machismo com o título: o que é mansplaining.
Um dos diálogos mais interessantes do filme é aquele em que Goldblum reflete sobre insect politics. A política insetal ou política de insetos não existe, o que é uma forma robusta de explicar que insetos não são como seres humanos, não discutem a sociedade, não abrem mão de certas coisas para acomodar as necessidades de outros. Ele não podia dizer de forma simples que o instinto animal estava dominando-o e por isso a jornalista estaria em perigo perto dele, e tudo bem, é condizente com a personagem dele e dá uma dimensão literária interessante para o texto.
Então me parece que, para o texto fluir, exige uma troca com a interlocutora, que, num filme contemporâneo americano provavelmente se daria no seguinte formato: ela está de coração partido e não quer ser mandada embora e, apesar de saber que ele está dizendo isso, ela insiste em perguntar “quê?”, “como?”, para escutar o término de maneira clara, como ela merece. Contudo, como ela tem um útero atrapalhando a cognição, ela fica extremamente confusa com o linguajar complicado, e repete “eu não entendo o que você está dizendo”.
Não fosse suficiente a relação de submissão intelectual com o protagonista, ainda surge um ex-namorado, que é chefe dela, como um apêndice incômodo na obra, tentando ajudá-la e salvá-la frequentemente.
É ruim e é bom. Se conseguirmos ignorar a representação feminina, provavelmente dá para curtir o filme. A questão que fica é: porque as grandes obras são masculinas? …o que nem é uma dúvida.