Por ser um thriller/drama, não é uma escolha objetiva para essa coluna de terror. Com uma fotografia realista, trilha sonora discreta e planos neutros (quero dizer, que não evidenciam a violência por meio da revelação do gore e não criam suspense sobre o não-visto), esse filme não é o que eu normalmente chamaria de terror. O trailer, inclusive, vende o filme como se houvesse uma ambiência ébria de terror, que não é entregada pela obra.
Contudo, a violência que conduz a história, construindo a narrativa unicamente em cima de atos e acontecimentos macabros, de crueldade crua, além de orbitar o tema da religião cristã – que, pessoalmente, me arrepia a espinha – são elementos que dão o tom de um horror que cabe ser visto sob essa ótica.
A equipe técnica é o primeiro elemento que gera interesse sobre o filme. Dirigido por Antonio Campos, conta com dois atores que estão em alta: Robert Pattinson, que para a maioria de nós ganha evidência como o galã adolescente – tendo cumprido esse papel nos filmes Harry Potter, como Cedrico Diggory, e Crepúsculo, como o Vampiro Edward – é, na verdade, um excelente ator, com uma capacidade de dar vida a uma gama de diferentes personagens; assim como Tom Holland, que se tornou o marcante homem-aranha da franquia Marvel dos Vingadores, e nos apresenta em O Diabo de Cada Dia um personagem de dimensões profundas e complicadas.
O Diabo de Cada Dia, que condiz com o título original (The Devil All The Time, em tradução livre: “o diabo o tempo todo”), carrega ironia desde seu nome. Isso porque não é um filme religioso (que crê em diabo), já que o único personagem com bússola moral não é religioso.
A forma crua com que a direção trata os assassinatos, a cena das aranhas, o assédio sexual, condiz com a crueza com que o filme trata as perversões e completa falta de empatia dos personagens.
Sem qualquer sinal de reticência, os personagens masculinos cometem assassinatos, assédio seguido de gaslighting, humilhação, abuso de poder, e controlam, a partir disso, todos os movimentos do enredo. O cenário profundamente cristão sobre o qual o filme se ergue parece colocar em evidência como esses homens entegam para a igreja a responsabilidade pela moral, e justificam a partir da fé todos seus atos; em contraste com os personagens que pensam sobre a maldade e vivem em sofrimento, que são as duas mulheres e o personagem de Holland, que são os únicos que se sentem responsáveis pelo que fazem.
Todos os acontecimentos do filme parecem se alinhar em uma sequência sem causas e consequências, num formato de roteiro “e daí x, e daí y, e daí z”, que costuma ser uma forma de narrativa empobrecida – que, contudo, se justifica no final, em que tudo é costurado por Holland que, ironicamente, acaba sendo levado a assumir o papel de justiceiro, sendo colocado em confronto com os “pecadores” nas situações em que cai por acaso. Essa estrutura aleatória em que tudo se encaixa no final parece um elogio minucioso ao ditado “deus escreve certo por linhas tortas”.
Um senso de catarse na conclusão do filme, em que se entende que todos os personagens pagam pelo que fizeram, é ainda mais significativo pelo expressão do desejo de Holland de ser perdoado pelas pessoas à sua volta – sem demonstrar preocupação com o perdão divino.
Um ensaio anti-religião, com um tom anti-patriarcal claro, apesar de começar arrastado (subvertendo a estrutura em atos, como se apoiando na estrutura literária da obra que lhe dá origem) utilizando de uma enorme introdução antes de pegar ritmo (ou antes de começar os atos tradicionais), se revela como uma experiência envolvente e interessante.