Imagino que todos conheçamos o conto de João e Maria que, na versão mais popular, conta a história de dois irmãos que, enquanto passeavam por uma floresta, encontram uma casa feita toda de doces, vão até lá e são atacados por uma bruxa, que tenta comê-los.
O filme é bastante fiel ao enredo central do conto, com algumas releituras. A primeira pista é o próprio título do filme, que inverte a ordem dos nomes – sabemos que Maria vai ter alguma importância diferente nessa versão, e isso se concretiza quando ela se revela também uma bruxa.
Um aspecto importante no roteiro cinematográfico é a contundência da temática e como ela é reforçada nos diversos âmbitos do filme. A temática de Maria e João, por exemplo, é o contraste entre inocência e malícia, apresentada já no relato que abre o filme: a lenda de uma criança (“a mais bela que já nasceu”) que se torna uma bruxa dotada de crueldade indiscriminada. Esse tema já vinha de certa forma explícito no conto, que orbita uma casa de doces mágica, bela, aparentemente inocente como uma criança; mas que por dentro é má.
A começar pela fotografia que, nos momentos mais grotescos, se utiliza de enquadramentos que lembram pinturas de paisagens, muito amplas e realistas, com uma preocupação com a beleza e pureza estética.
Não somente no enquadramento: Enquanto Maria, nos diálogos, divide o enquadramento com uma única fonte de luz, a pessoa que fala com ela (o milorde, depois sua mãe, depois a bruxa) é iluminada por dois pontos de luz de cada lado do corpo; sugerindo que essas pessoas, que são adultas e tentam corrompê-la, manipulá-la e, em resumo, querem seu mal, têm duas faces, enquanto Maria é verdadeira. O momento em que Maria decide tentar enganar a bruxa e levar vantagem, é retratado por um enquadramento de Maria em um corredor, com várias velas.
Enquanto Maria e João tentam sobreviver após serem expulsos de casa, sua inocência é constantemente testada, e há sempre algo tentando seduzí-los. Os cogumelos coloridos se destacam do chão e seduzem a atenção; comem e ficam drogados, e também é nessa viagem que Maria escuta a voz da bruxa a chamando. O cheiro de bolo os atrai. O banquete servido à mesa, sem ninguém para comer. Essa lógica também é reproduzida na escolha da fotografia e arte, na construção de muitas cenas monocromáticas com um ponto de luz amarelado no centro, como uma isca.
No fim das contas, como esperado por conta do título, a jornada de Maria acaba sendo o condutor da trama. Seu irmãos aos poucos some do filme e, finalmente, quando ela decide crescer, precisa deixar seu irmão mais novo (sua inocência) ir embora.
Todas as simbologias (e sonhos) que deixam claro a dimensão alegórica do filme não são suficientes para diminuir o horror impregnado na obra. Algumas cenas são fortes, se aproximando do gore, e o clima geral do filme é assustador.