The Rental (2020)

Screenshot_2020-08-27 The Rental (2020)The Rental (‘o aluguel’ ou ‘a casa alugada’, traduzido livremente), é uma nova produção da A24, a produtora independente que ganhou o mundo com A Bruxa(2015), Moonlight(2016), A Ghost Story(2017), e continuou entregando produtos de qualidade – sempre com o fator comum de trazer algo diferente, inovador, inusitado.

E é dentro dessa proposta que precisa se experienciar o The Rental. Mais uma vez se arriscando pelo universo do terror, a produtora lança esse filme, roteirizado e dirigido pelo ator Dave Franco. Se quando se busca um filme de entretenimento há a expectativa do cumprimento de certos padrões, acredito que no universo do terror isso se agrava. Primeiro o espectador tem uma revelação de que algo está acontecendo: um objeto se move, uma porta se fecha; um vilão observa de longe; ou até mesmo um prólogo oferece uma versão resumida do ataque do monstro e a consequência do que se espera no filme. No caso de Rental vemos, sem os personagens verem, o homem encapuzado os observando de longe. Bem, agora o esperado é que o perigo se aproxime aos poucos, e um dos personagens o perceba e tente comunicar aos outros, que ficarão céticos.

Essa é a primeira curva do filme, já que os personagens, que percebem que algo está errado ao descobrir câmeras pela casa, estão tão envolvidos em seus próprios dramas que escolhem ficar calados.

Se, por um lado, o espectador, que já sabe que há gravidade maior nas câmeras que eles viram, acha difícil de acreditar que essa seria a escolha dos personagens (ficar na casa ao invés de ir embora), ao mesmo tempo o filme se esforça para que o envolvimento com o drama dos personagens seja suficiente para a suspensão da descrença. Os conflitos dentro do grupo, as tensões sexuais e traições, são expostos de uma forma constante e incômoda, sempre a ponto de explodir.

Também violando as expectativas das histórias do gênero, a personagem de Brie é a única que se opõe ao absurdo de esconder um cadáver, ao invés de ligar para a polícia; provavelmente, em um grupo de pessoas múltiplas, fora de um filme de ficção, haveria de fato pensamentos discordantes sobre o que fazer nessa situação. Acredito que esse tipo de história (em que um grupo de pessoas se depara com um cadáver e tetna escondê-lo), se levada ao cotidiano, teria revelado o quanto absurda é; como acontece na série How to Get Away With Murder – se todos fôssemos mesmo assassinos em potencial, que agem sempre da mesma forma quando encontram um cadáver, tentando dispensá-lo, então a trama dessa série é perfeitamente razoável.

O estranhamento que o grupo tem com o proprietário dá a pista errada sobre o vilão do filme, permitindo o plot twist, que foi talvez a parte mais forte do filme, por impressionar o espectador junto; enquanto no restante do filme nos sentimos presos à perspectiva do observador que vê tudo dando errado, tudo previsivelmente se encaminhando para a morte de todos. Essa constância inescapável, em que os personagens não resistem, não reagem e, em suma: não percebem estar num filme de terror, corresponde ao tema do filme; o horror se constrõe sobre um vilão que observa as vítimas como um voyeur e tranquilmente as assassina quando dá vontade, enquanto elas vivem suas vidas alheias ao que está acontecendo. É só no epílogo que descobrimos que o filme era sobre esse voyeur, que é o mesmo que um diretor de slasher, escolhendo grupos de pessoas, fazendo surgir um conflito para depois, sem motivos reais, executá-las.

A proposta do filme pode ser extremamente interessante, mas se o público o procurar com expectativas de se envolver numa trama de slasher com um crescimento de tensão constante e com um final impactante, irá se decepcionar.

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