You Should Have Left (2020)

Eu tenho uma tendência, assim como muita gente, de considerar a Blumhouse como selo de garantia de qualidade, depois de a Produtora ganhar atenção do público com sucessos como Corra (2017), Sobrenatural (2010), Atividade Paranormal (2007) , Halloween (2018), O Homem Invisível (2020), além daqueles mais subestimados pelo grande público, como A Visita (2015), Ouija (2014) e Oculus (2013).

Mas, recentemente, tenho assistido a um desastre atrás do outro. A Ilha da Fantasia (2020) e The Darkness (2016), para dar alguns exemplos, fizeram surgir em mim um medo de assistir aos filmes de terror da produtora antes mesmo de começar. Dito isso, continuo sem saber em qual das categorias colocar You Should Have Left . Acontece que, nessa obra, o protagonista é um vilão-não-vilanizado, o que causa uma sensação conflituosa a respeito do filme.

You Shoud Have Left, que em português seria “você devia ter ido embora”, foi escrito e dirigido pelo David Koepp. O nome do filme reforça a impressão de que o diretor se simpatiza com o próprio personagem (o protagonista, Kevin Bacon), assim como deveríamos simpatizar/empatizar, apesar de ele ter assassinado a primeira esposa. Se, num primeiro momento, achei interessante a construção de um homem que parece perfeitamente decente, que no final se revela um machista assassino, de modo a representar cirurgicamente a percepção e o tratamento que os homens tem o privilégio de receber na nossa sociedade; porém, numa segunda avaliação, tendo em conta que em nenhum momento o filme desconstrói essa figura, a não ser pela breve confissão de assassinato – cheia de justificativas, o retrogosto que fica é de que o espectador é induzido a empatizar com o personagem apesar de tudo – o que comentarei a seguir.

O filme começa bem. A ambientação da casa, as curiosidades sobre sua história, apesar de ser um enredo já conhecido por quem consome filmes de assombração, flui e cativa com alguma personalidade. No decorrer da trama o mistério sobre a casa se aprofunda e gera interesse – os cômodos que aparecem do nada, sempre com luzes acesas, que o protagonista se sente obrigado a apagar antes de dormir, funcionam como metáfora da sua tentativa de reprimir o próprio passado.

Do mesmo modo a casa, que em certo ponto é explicada por um personagem (que expõe que a casa é um entidade que faz com que as pessoas paguem pelos seus erros), distorce a passagem de tempo – a personagem de Kevin Bacon fica presa num looping temporal, de modo que o passado e futuro não tem distinção – como se demonstrasse que não é possível escapar do passado, e nada passa se ainda afeta o presente (como o assassinato de uma pessoa que, evidentemente, a afeta no presente já que ela é privada de existir nesse).

Com a escalação de perigo – que sempre acontece com o avanço da minutagem do filme de terror – a casa o obriga a deixar a filha ir embora sem ele. Se, por um momento, havíamos questionado e julgado a escolha dele, que não havia deixado a filha ir embora com a mãe (que está se separando dele após a confissão), em seguida o perdoamos, quando ele abre mão de estar com ela, para salvá-la. Por isso parece que o sentimento é de pena pelo personagem, que é privado, por causa  do seu passado, de viver algo novo – como se devêssemos concordar que o feminicída deveria simplesmente continuar sua vida, enquanto estamos sendo induzidos a encarar justamente esse capítulo de sua vida. Como assinatura disso tudo, o título do filme é referência a um bilhete que o protagonista escreve para si mesmo, quando tentava se comunicar com seu eu do passado pedindo para que fugisse – como se tudo que ele precisava fazer para se livrar daquilo, do que fez e das consequências, fosse fugir da casa. 

O filme perde toda sua força porque, mesmo conseguindo construir momentos de medo real, de curiosidade, de tensão; abandona um espectador à sua própria confusão, esperando sentir algo de catártico no castigo do herói/vilão, mas foi forçado durante o filme todo a ver a casa como demoníaca e vingativa, ao mesmo tempo que é induzido a enxergar uma vítima no personagem que não se arrepende do erro que cometeu – erro esse que é o centro da trama.

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