Filmes de terror, normalmente, tentam se comunicar com medos comuns a nós. Muitos críticos afirmam que os monstros que foram marcantes nas grandes produções de Hollywood, como Godzilla e Jaws, são personificações dos medos que caracterizavam suas épocas.
Mas nem toda representação é tão alegórica. O medo do escuro, o medo da morte, o medo do desconhecido, são sentimentos abstratos que tangenciam quase todas as ficções de terror – que são comuns à humanidade, seja enquanto adultos ou enquanto crianças – a visceralidade do filme consegue (ou não) nos fazer conectar com os nossos medos conscientes e subconscientes.
Há, ainda, um formato intermediário, que é o caso de RELIC. Nesse tipo de filme, ao invés de somente criar-se um monstro, a obra extrapola uma situação, de terror individual, para além de seu arco de ação – tornando-a tão, ou mais, terrível externamente quanto é internamente. Um exemplo disso é o Babadook, que tratava do luto e depressão da protagonista, transfigurados em uma figura que assombrava ela e seu filho, e deformava toda a realidade em torno deles. Nesse caso, tanto em Babadook quanto em Relic, ao invés de o filme assumir completamente o teor sobrenatural (como acontece nos filmes de monstro e de assombração), ele se entrega à metáfora no terceiro ato, deixando claro o subtexto de seu enredo, ao conciliar a protagonista com o seu monstro.
RELIC (Relíquia, em português, ainda não tem título no Brasil), constrõe metáforas fortíssimas ao contar uma história de demência na velhice em formato do gênero de terror. A trama do filme se consolida a partir da sugestão, por comparação com nossas referências, de que Edna estaria sendo controlada/possuída por um espírito presente na casa
Se, num primeiro momento, quando a filha e a neta chegam à casa de Edna porque ela está sumida há dias, há um consenso geral de que Edna sumiu por confusão mental e precisa ser cuidada pela família; em seguida essa razão é posta à prova, quando a direção do filme eleva o nível do sobrenatural.
A possibilidade da assombração, rapidamente, é reforçada pelo medo que a filha e a neta parecem sentir de Edna, a medida que convivem com ela e presenciam os momentos de esquecimento, confusão, agressividade. É reforçada quando a vemos falando sozinha, e quando sabemos da história da edícula onde o avô dela passou os últimos anos de vida enlouquecido, e da qual só restou uma janela de vidro que está, agora, anexada à casa.
Aos poucos as metáforas ficam mais claras, como quando Edna leva seu album de fotos para o jardim e come algumas fotos e enterra o restante, para a presença má que vive na casa não pegar. Ou, também, quando ela vai deixando de reconher a filha e a neta.
Ao contrário de Babadook, que o tempo todo dá pistas de que a assombração que a mãe e o filho veem é apenas o sobretudo e o chapéu do falecido pai, quase se desfazendo totalmente da estética sobrenatural; Relic, por sua vez, mantém durante todo o filme a força daquele monstro, não cedendo à materialidade da doença mental nem no último take.
A neta, que tenta se reconectar com a avó, se perde numa dimensão alegórica da casa, em que tudo está bagunçado, os corredores não fazem sentido; o bolor que surge na janela (que veio da edícula), e contamina toda a casa e o corpo de Edna; Todos esses elementos, que certamente já vimos em outros filmes do gênero, funcionam perfeitamente para dar realidade a um terror muito específico que grande parte do mundo passa hoje, ao assistir entes queridos perderem a razão aos poucos, na velhice. Os cômodos inescapáveis que fazem a neta se sentir dentro da mente da avó; a ‘janela’ que sobrou da edícula e fez Edna herdar a doença(Alzheimer? outra demência?) de seu avô.
O final do filme, por fim, prova a lucidez do roteiro e direção, que permanece consistente com a estética que, mesmo naquele momento de reconciliação, é profundamente terrível. A filha ajuda Edna a arrancar o que resta de pele, permitindo que ela não mais se force a tentar ser o que ela não é; e a abraça, junto da neta, que também se reconcilia com a mãe. Mas o tom sombrio permanece, com aquela figura monstruosa, que antes era Edna, nos braços das duas; ela é, agora, somente o demônio, somente a doença, que ainda está ali e ainda é terrível, mesmo acolhida.