Buffy – The Vampire Slayer (1997-2003) foi marcante para toda uma geração, e continua conquistando espectadores até hoje. Nessa matéria tratarei da forte simbologia feminista construída na conclusão da série, além de comentar outros motivos que fazem com que Buffy tenha um dos melhores finais de obra seriada de todos os tempos (na minha opinião).
A SÉRIE
Buffy – A Caça-vampiros mudou a forma de se fazer obras seriadas. Ela inaugura as séries com trama contínua junto com episódios de tramas isoladas – e o faz de maneira magistral, sendo consistente ao longo de 7 temporadas. O roteiro de todos os episódios é redondo e tudo contribui para, ou ao menos funciona, dentro da trama macro. Dos acontecimentos grandes que mudam tudo, como a morte temporária de Buffy, que faz surgir outra Caçadora; até os demônios inusitados que mudam tudo: como quando o Demônio da Dança evocado acidentalmente gera um episódio em formato de Musical, que contribui com a trama macro quando obriga Buffy a cantar o que realmente sente – como os números musicais via de regra fazem dentro de seu gênero – trazendo um segredo importante à luz.
O arco das personagens é impecavelmente trabalhado, restando desenvolvimento psicológico até para alguns personagens masculinos, apesar de que o mais impressionante aqui é como as personalidades e arcos das mulheres assumem formas múltiplas, de maneira que já se destacaria atualmente, mas foi, incrivelmente, em 1997.
Isso, junto de uma construção técnica cuidadosa, entre direção consistente; efeitos especiais dentro de seus limites, sem chegar ao ridículo; arte, fotografia e trilha sonora acima de críticas; é o que faz Buffy – The Vampire Slayer estar entre as melhores séries já feitas.
CHEGANDO AO FINAL
Era de se esperar que a conclusão de uma série tão bem amarrada não poderia deixar pontas soltas. Ao longo da última temporada, os personagens que estavam dispersos do núcleo foram chegando, sempre com razões ligadas à trama macro.
(Andrew e Jonas abriram O selo, Jonas morreu e Andrew continuou na casa de Buffy, começando a conclusão do seu arco dramático; Faith foge da prisão e se junta à luta, também chegando à conclusão de seu arco; por fim, Angel trazendo o Colar-super-poderoso que Spike usa para finalizar a guerra).
O único desses retornos, ou fechamentos, que poderia soar forçado é o de Angel, que aparece por 5 minutos no último episódio depois de duas temporadas fora da série – mas ele cumpre papel essencial, não só por trazer a arma (o que pareceria uma gambiarra de roteiro), mas pelo diálogo que tem com Buffy. E é sobre isso que vamos tratar aqui.
SOBRE O QUÊ?
Quem acompanhou a série (ou assistiu à abertura alguma vez) deve saber que “em cada geração uma Caçadora nasce e ela sozinha deve lutar contra as forças do mal”, e quando uma Caçadora morre, uma outra é “ativada” para substituí-la, recebendo, então, os poderes de super-força, agilidade, reflexo, etc, etc, etc.
No 15º episódio dessa temporada, Buffy descobre que quem controla esse poder sobrenatural são três homens feiticeiros. O poder existe em algum lugar que eles conseguem acessar e, assim, controlar seu direcionamento. É aí que começa a se revelar uma dimensão simbólica que dá o nó para finalizar a série.
Buffy, uma mulher, recebe a oferta desses três homens de ficar mais poderosa – em troca de que ela deixasse de ser quem ela é (tornando-se algo menos humana). A alegoria aqui construída pode ser aplicada em diversas situações do mundo moderno, desde uma mulher que precisa se comportar como um homem para se afirmar em algum espaço, até uma mulher que precisa corresponder às expectativas do seu papel de gênero para pertencer ao espaço que quiser – e quem tem esse poder na mão para fazer a decisão é uma corporação masculina.
No 18º episódio o Primeiro Mal (aquele que está por trás do ataque apocalíptico que Buffy está enfrentando nessa temporada) resolve se apresentar em sua forma humana: um padre que deixou o sacerdócio dentro da igreja para purificar o mundo de outra forma, e vem lutando pela entidade Primeiro Mal desde então, sendo dono de uma força física quase imbatível.
Esse padre – além de ser um padre, que já é uma figura que evoca o tradicionalismo patriarcal da religião Cristã – é abertamente misógino, e não perde uma oportunidade de se enojar com a impureza que é uma mulher existindo, se expressando, andando sozinha… A estratégia desse padre é se apossar de uma arma ancestral que, mais tarde, vamos descobrir que pertence à Caçadora. O padre esperava arrancar essa arma da rocha (sim, referência aberta à espada de Rei Arthur), para subverter o poder dela a seu favor. A simbologia de um homem misógino tentando se apossar da força ancestral dessas mulheres poderosas é de uma profundidade na cara, que podemos relacionar, por exemplo, com a história das “bruxas” medievais que dominavam a ciência da cura, e são massacradas para o homem branco dominá-las – e à medicina.
Quando Buffy finalmente consegue se sobrepôr e matar o Padre, ela o faz enfiando o machado entre as pernas dele – o que obriga o Padre a paralisar por um momento, deixando seu rosto revelar, enfim, que ele sabe que perdeu; em seguida ela o parte no meio – e a câmera não revela seu cadáver, mantendo o foco na força simbólica de vencê-lo primeiro na destruição do símbolo da masculinidade viril: seu pênis.

OS DOIS ÚLTIMOS EPISÓDIOS
A Caçadora e o Machado
A solidão de Buffy, enquanto a Caçadora responsável por proteger o mundo, a única de sua geração, é um assunto tratado em alguns momentos da série. Por que ele se torna o condutor da conclusão da trama macro? Como sua simbologia toma uma forma tão importante?
Nos dois últimos episódios a simbologia dessa solidão se revela completamente, juntando todas as peças dadas ao longo da temporada: a mulher que tem poder/autonomia num mundo masculino é sozinha. Toda a nossa ficção mainstream reforça essa lógica, quando os filmes retratam mulheres com personalidade como as únicas de sua espécie; a mulher que tem personalidade é diferente, é especial, ela não é superficial como as outras. A mulher que tem identidade, profundidade, pode até ser aceita como ‘um dos caras’. Ela é cool. Uma das razões para essa representação funcionar é que o gênero feminino é coagido a, em sua vida, só se importar com a atenção e validação do homem.
Recapitulando: Lembra que Buffy já morreu? Nesse momento, Faith recebeu os poderes de Caçadora, participou de uma temporada e depois seguiu outro caminho – voltando na última temporada para amarrar a história.
No penúltimo episódio, Faith conversa com Buffy sobre a solidão de ser Caçadora e, em dado momento, profere uma afirmação que funciona como alegoria perfeita para a competitividade entre as mulheres, que existe e é incentivada na nossa sociedade, quando diz:

“só é para existir uma. Não era para existirmos ao mesmo tempo. Deve ser por isso que não conseguimos nos dar bem.”
Me lembro de uma colocação marcante da ex-diretora da câmera de comércio da Islândia, no documentário de Michael Moore “O Invasor Americano”, na qual ela explica que nas grandes empresas da Islândia existe uma cota de um mínimo de 3 mulheres da mesa de decisão/na chefia da empresa. Ela explica que, de acordo com estudos internacionais, quando você tem a partir de 3 mulheres, a cultura começa a mudar; pois quando se tem apenas uma, é “token”, ou seja, apenas uma figura que serve para a direção dizer que “sim, aqui tem espaço para mulher”. Quando se tem apenas duas, elas são só a minoria. É quando se tem mais do que isso que a dinâmica do diálogo muda, os assuntos mudam, e, de acordo com o que ela defende e o documentário demonstra com outros exemplos, a sociedade liderada por mulheres é mais igualitária, solidária, menos preocupada com o crescimento desenfreado e competitividade.
É interessante imaginar como isso poderia se aplicar em todos os espaços da sociedade; como a presença das mulheres, em pé de igualdade, pode mudar as relações nas mais diversas esferas sociais. E como não podemos fazer essa mudança sozinhas, e é aqui onde entra a ideia da sororidade, que quer que a gente, enquanto gênero, entendamos que não estamos sozinhas.
Revoltada com essa solidão imposta, pensando na descoberta que fez, de que homens feiticeiros fizeram as regras da Caçadora e decidem que pode ter o poder a cada vez, é que Buffy toma a decisão de usar aquele machado mágico, que é condutor da magia que faz a Caçadora, para compartilhar o poder da Caçadora com todas as potenciais; e uma bonita série de imagens mostra mulheres e meninas ao redor do mundo vivendo suas vidas quando a magia chega, e seu olhar muda para uma expressão de força e determinação.


Mas, antes de ter essa ideia genial, Buffy vai até um antigo monastério tentar descobrir a origem do Machado. É quando ela encontra uma bruxa anciã, que explica que foi ela e outras ancestrais Guardiãs que confeccionaram o Machado, para proteger as Caçadoras. Quer dizer, por traz dos feiticeiros que cooptaram o manuseio da magia que faz as Caçadoras, existem mulheres, apagadas da história, que encontraram uma forma de catalisar essa magia em nome de beneficiar e proteger as Caçadoras. O encontro com essa bruxa mãe simboliza o encontro com a ancestralidade feminina.

O compartilhamento do lugar de poder, que era um privilégio reservado à Caçadora, retoma à discussão colocada anteriormente, sobre essa falsa noção incutida na nossa sociedade de que ser aceita no mundo masculino, ter autonomia e poder, é um privilégio que não deve ser divido, já que só cabe uma, já que competimos entre nós. A escolha de finalizar a série com essa solução – subvertendo a narrativa do herói, quando Buffy abre mão do lugar de heroína (ao mesmo tempo que salva o mundo), não precisando mais sacrificar sua vida para a missão; e ainda sorri por conta disso – nos deixa com uma mensagem feminista maravilhosa, além de inovar e impressionar na forma de contar uma história.

O arco romântico de Buffy
Na primeira temporada, Buffy se relaciona com Angel. Esse caso entre eles gera dezenas de conflitos importantes na construção da história, sendo considerado como o grande amor da vida de Buffy até o último episódio: e é por isso que o diálogo com ele é tão significativo. Ela está, agora, num vai-e-volta romântico com Spike, o que leva Angel a perguntar qual dos dois ela prefere. Ao que Buffy responde com a – querida – analogia:
“Eu sinto que sou uma massa de biscoito crua. Eu não estou cozida ainda. Talvez um dia eu seja um biscoito pronto, e talvez aí eu possa deixar alguém se aproximar”.
Dando, assim, um chute em todas as possíveis expectativas como “com quem ela vai ficar?”. É uma escolha genial que nossa heroína termine a história, sorrindo, sem precisar de homem (como par romântico) nenhum.

Última cena da série
O último diálogo com Spike chega para abalar ainda mais as estruturas. Depois de anos tentando conquistar Buffy, completamente apaixonado, Spike faz seu último gesto de altruísmo pela causa: vai se explodir para terminar a guerra. Por gratidão, Buffy decide dizer que o ama, para que ele morra feliz. Sua expressão facial e tom de voz seria o suficiente para sabermos que ela não está sendo sincera, mas só para garantir, o roteiro faz com que Spike responda: “não, não ama. Mas obrigada por dizer.”

“Eu te amo”
A subversão contida nessas escolhas é de uma fineza notável. Temos um pesonagem masculino que conquistou os corações dos espectadores, passou por uma jornada de desconstrução e reconstrução pessoal completa, se transformando em uma pessoa realmente ‘do bem’. Um cara que apoia Buffy em tudo, é sua força ao longo da última temporada, e ainda dá a vida para salvar o mundo: e Buffy não se apaixona por ele. Um homem, ao tentar conquistar uma mulher, pode fazer o que quiser, a escolha e o controle dos próprios sentimentos sempre vai ser da mulher. A força dessa cena não cabe nela mesma – devia virar um filme sobre “porquê friendzone não existe” ou “porquê não importa que você é um cara legal, ninguém tem obrigação de ficar com você”.
Importante lembrar, para valorizar, mais uma vez, o trabalho minucioso de escrita da trama, que na temporada anterior a essa uma moça vidente disse à Spike que um dia Buffy falaria que o ama.
BÔNUS – Três personagens marcantes para a abordagem feminista da série
Willow
Aluna aplicada na escola, na primeira opotunidade ela prova sua inteligência e habilidades como hacker. E, contrastando com seu jeito tímido e fala cautelosa, sua coragem aparece já nos primeiros episódios, demonstrando o quanto sua personagem será complexa. Torna-se melhor amiga de Buffy já na primeira temporada, sempre colaborando com as pesquisas necessárias na luta contra o mal. Nas temporadas 5 e 6 passa a ser co-protagonista, tendo o mesmo tempo de tela e importância em sua jornada na série quanto Buffy; ao mesmo tempo que se descobre lésbica (ou bissexual?) e começa a estudar bruxaria. Chega ao final da 6ª temporada como uma das bruxas mais poderosas do mundo. Além de se destacar com suas habilidades naturais e apreendidas, tem um arco dramático profundo e intenso, e ainda traz, para o núcleo principal de ação, a visibilidade da questão da orientação sexual, que tudo tem a ver com a destruição do patriarcado.
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Ânia
Uma Demônia de Vingança com mais de mil anos, Ânia escuta o desejo de vingança dentro de mulheres, e surge para àquelas que foram injustiçadas por seus parceiros românticos, para atender a seus desejos e castigar os respectivos homens. Quando ainda era humana e chamava-se Anianka, tinha um marido que não se importava com ela, a usava, traía e humilhava. Fez uma bruxaria contra ele e a vila onde viviam, na qual era desprezada. É quando o mestre demônio de vinganças a recruta. Depois de ser vencida por Buffy e seus amigos numa Vingança que executou, Ânia volta a ser humana e se junto à gangue. Interessante que passamos a série quase toda achando que Ânia é sem noção social só porque ela é uma Demônia de mil anos, mas no flashback descobrimos que ela sempre foi meio outsider. Simplesmente por ser uma personagem esférica, com muitos traços de personalidade explorados na série, já poderia ser considerada uma manifestação da direção da produção; porém, como todas as personagens femininas já são assim, o diferencial de Ânia é sua motivação para se tornar Demônia, e a escolha de vítimas que iria atender.
Warren – Na 6ª temporada quem vai se estabelecer com o vilão principal não é um vampiro e nem um demônio: é um jovem homem misógino. A jornada de Warren dá espaço para diversas problemáticas não-mágicas: na sua necessidade de poder, no seu ódio às mulheres, na sua completa inaceitação de não ter o lugar de privilégio que ele quer assegurado. Juntando-se com dois amigos que tem conhecimentos mágicos, o Andrew (que sabe convocar demônios) e o Jonas (que domina algumas magias de ilusão), ele quer ter tudo que acha que tem direito. Até a questão do estupro surge quando ele tenta controlar a mente de uma ex-namorada. A naturalidade com que os três se comportam, como se não tivessem noção da opressão que operam nas suas tentativas de conseguir o que querem, faz com que a narrativa funcione de maneira orgânica expondo discussões essenciais sobre a sensação de merecimento masculina – quando acabam sempre sendo confrontados por uma mulher que diz a eles o absurdo que eles estão fazendo.







