The Doll 1, 2, o spin-off Sabrina e The Doll 3(com lançamento previsto), é uma série de filmes em que a trama orbita uma boneca possuída por uma força maligna: daquelas bonecas que você se pergunta: “porque alguém compraria uma boneca feia dessa, com cara de assombrada?”.

Na fraquia The Doll (
2016,
2017 e mais o 3º com lançamento previsto para
2020)
Sara Wijayanto dá vida à Laras, uma médium poderosa que é acionada para salvar a família, que está sendo assombrada, em cada filme. E também em
Sabrina/Boneca Maldita(2018), que é divulgado como um spin-off da franquia The Doll.
Curiosidade: acredito que há pelo menos mais um filme (Tarot, 2015) em que Sara dá vida à outra personagem nesse papel de Mentora.
A personagem de Laras, que tem sutilmente sua própria jornada, lembra a do casal Warren, que conhecemos por Invocação do Mal/Anabelle (na qual dizem que the doll foi inspirada): ela socorre essas famílias porque tem o dom para isso, mas essa tarefa também a consome – em um dos filmes, uma pessoa que se importa com ela sugere que Laras não acuda a família dessa vez, pois é um ofício que já a prejudicou anteriormente (mas ela vai de todo jeito).
Laras também tem uma sala, em sua casa, onde mantém protegidos os objetos amaldiçoados de suas missões anteriores.
Porém, há algumas diferenças fundamentais entre as franquias.
O que gosto especialmente de Laras é que ela trabalha sozinha. É uma mulher autosuficiente. Semelhante a uma heroína de ação, ela investe sua sensibilidade psíquica, como também expõe-se fisicamente em situações de perigo sobrenatural; tudo sem precisar da rede de apoio masculina, assim se distanciando de uma figura comum no terror norte-americano: a médium sensível
demais, que precisa de auxílios diversos, além de resgate, vista em Poltergeist(1982), Sobrenatural(2010), Invocação do Mal(2013), Poltergeist(2015).

Outra distinção marcante dessas assombrações para aquelas de filmes norte-americanos – que uso como exemplo por serem os que tem, infelizmente, mais alcance nos nossos cinemas e imaginários – é a temática.
Em todos esses filmes os personagens são assombrados por fantasmas que buscam alguma forma de vingança contra um dos integrantes da família, ou existe uma razão muito pessoal, ancorada numa ação dos personagens feita por mau-caráter. Então, mesmo Laras sendo capaz de fazer o exorcismo da boneca, ela acaba sempre precisando descobrir porque a família está sendo atacada. Não é só sobre os poderes do espírito e como se livrar dele, mas sobre descobrir quem está sendo perseguido e porquê.
Enquanto nos nossos filmes de possessão comerciais de assombração norte-americanos (O Exorcista, Invocação do Mal, O Bebê de Rosemary, Profecia) constrõe-se uma dicotomia de Bem
versus Mal, em que o demônio é a incorporação de um mal que existe unicamente para desafiar a bondade de deus e a fé dos humanos, já em The Doll o lado mais egoísta dos seres humanos é trazido à luz.
O “mal”/fantasma/demônio não escolhe ferir aleatoriamente apenas porque é mal, nem escolhe as vítimas mais inocentes para fazer as pessoas duvidarem de sua fé cristã; a assombração atinge aqueles que foram verdadeiramente egoístas a ponto de prejudicar outra pessoa.
Essa tendência, ou lógica de justiça pós-morte, não é nenhuma novidade: o famoso Espíritos(2004), também asiático, já nos expunha a essa forma de escrever histórias de terror, onde o mal inato no ser humano é explorado e suas ações cruéis têm consequências.
Não é coincidência que em todos esss filmes, incluso Espíritos, a figura masculina é quem opera as crueldades e, em mais de um deles, a primeira suspeita é que uma das figuras femininas seja a “má”, e “culpada”, para depois de uma investigação descobrir-se que na verdade era a figura masculina – e que esse homem sabia desde o começo que a culpa era dele. Ou, para se colocar de forma mais acertada, foram esses que ganharam espaço/fama. A personagem de uma heroína mulher, nesse universo, ganha ainda mais força discursiva.
Seriam esses bons sinais do patriarcado sendo destruído no nosso imaginário?