Cenas cortadas por serem muito fortes. Atriz traumatizada. Set amaldiçoado. O maior filme de terror de todos os tempos não é um filme de terror. O que é verdade sobre o Exorcista e todos os seus boatos? E o que esse filme tem de tão especial?
Lembro bem quando assisti ao Exorcista pela primeira vez, com 13 anos. Quase o filme todo passei de olhos fechados, aterrorizada. À época, lembro de ouvir os boatos sobre o corte do diretor: no filme lançado comenrcialmente, tinham tirado cenas muito mais assustadoras, porque o público não ia aguentar.
boatos, bastidores e cenas deletadas
A verdade é que, de acordo com o diretor, as cenas cortadas foram sugestões do produtor da Warner apenas porque ele achava que o filme estava muito longo e explanativo demais. Sem muita vontade, o diretor remontou o filme a partir das sugestões do produtor, e acabou achando que ficou melhor. Assim, o filme foi lançado com 20 minutos a menos, entre sequências inteiras retiradas e algumas cenas apenas encurtadas pela suposta dinamicidade.
Isso é o que o Direitor diz no documentário de Bouzereau¹, porém, ao mesmo tempo, a equipe comenta as cenas que, à época das primeiras exibições, ficaram famosas por fazer as pessoas saírem da sala passando mal, vomitando e desmaiando. De acordo com membros da equipe, o mais pesado para o público foi a cena dos exames médicos – que foi, de fato, cortada do filme e só voltou na versão de 2000.

Diante de todo o mistério da produção, e da inovação ao tratar do tema do exorcismo, colocando um demônio dentro de uma garota inocente, deturpando todo um ambiente higienizado de uma família rica e inofensiva composta só por uma mãe e sua filha… é um pouco surpreendente que a sequência que causou maior reação do público seja de algo comum e realista – o que, na verdade, é bastante compreensível, uma vez que é muito mais próximo e imediato de sentir na pele o que a personagem está passando e se conectar com sua vulnerabilidade.
Muito do rebuliço, que contribuiu com a aura mítica assustadora ao redor do filme, estava ligado à adição da cena de Regan descendo as escadas, sugerindo-se que essa tinha sido assustadora demais para entrar no filme. Porém, de acordo com o diretor, a cena só retornou na versão de 2000 porque, antes do surgimento da tecnologia dos efeitos de pós-produção, os cabos que seguram a atriz estavam muito evidentes no filme, e em 2000 foi possível tirá-los na pós e lançar a cena.

A continuação dessa cena, que é mostrada no documentário, permaneceu fora do filme. Provavelmente, durante a montagem, perceberam que a descida da escada era suficiente, e deixar “no ar” o que acontecia em seguida teria um efeito mais assustador. Porém, é uma pena essa cena sinistra não estar no filme. Por sorte, você pode vê-la no youtube:
Depois de muitos anos brigados, por conta dos cortes no filme, o escritor do livro e do roteiro retoma o contato com o diretor, para pedir que ele considere fazer uma nova montagem do filme para lançamento em blu-ray, integrando as cenas deletadas. Atendendo ao pedido e montando o filme de 2000, o diretor agora considera essa a melhor versão do Exorcista. Curiosidades e mais informações sobre os bastidores você pode encontrar no blu-ray lançado nessa época, que contém um documentário sobre a produção do filme, e também uma versão toda comentada pelo diretor, em que ele conta coisas como, na primeira cena, a escavação filmada é de fato uma escavação real do Iraque, e que a equipe que trabalhava lá aceitou ser filmada em troca de receber orientações sobre como trabalhar no filme, e também aprender a fazer sangue cênico. E como a senhorinha que aparece na carruagem que quase atropela o padre Merrin, ainda no Iraque, era uma moradora local com 109 anos de idade.
Além do conteúdo do próprio filme, a produção de Exorcista ficou conhecida como a mais amaldiçoada de todos os tempos, por conta de vários desastres que acompanharam as filmagens. De acordo com o documentário televisivo do !E², algumas mortes de parentes das pessoas envolvidas na produção ocorreram durante as filmagens, além do próprio ator que intrepreta Burk (primeiro personagem a morrer no filme), que morreu 2 semanas após terminar sua parte das filmagens; e entre outras coisas não mencionadas, os membros da equipe estavam ficando com medo, achando que deviam parar de fazer o filme – um padre foi chamado para batizar o set. Muitos canais divulgam que houve um incêndio que atrasou as filmagens por semanas, e que queimou todo o set com excessão do quarto de Regan. Mas os próprios membros da equipe entrevistados nesse programa, dizem que nem viram o fogo, que nem todo mundo concorda que houve incêndio.
Mas a verdade é que a atriz que deu vida a Reagan relata que não tinha uma relação forte com a temática do filme. Para ela, por não ter tido educação católica, entendia que o tal demônio era apenas mais um monstro fictício como um lobisomem ou vampiro. Sobre as cenas com forte conotação sexual, ela afirma que não tinha dimensão do significado dos gestos e frases, com apenas 12 anos durante as filmagens, repetiu mecanicamente as falas e ações com conotação sexual, sob direção minuciosa do diretor do filme. A atriz Ann Miles, 21 anos, fez alguns takes da cena de masturbação com o crucifixo, que consideraram que demandavam demais de Linda, assim como a cena da escada.
Porém, já no documentário do !E² ela admite que teve uma lesão nas costas por conta do efeito especial que a sacode na cama, e seus gritos de “pare, por favor” que estão no filme, foram reais. O que aconteceu, também, com a atriz Ellen Burstyn, sua mãe no filme, que foi puxada contra a parede por um cabo, para a cena em que o demônio a atira longe, que também sentiu dor real que foi pega pela câmera.
Como é possível ver no documentário de Bouzereau¹ e também é atestado pelos membros da equipe, a atriz estava frequentemente leve no set, rindo e brincando até o momento do “ação”, quando se tornava uma menina assustadora. É interessante como essa intercalação da vida real se reproduz no filme, como chave fundamental da trama – sobre o que falaremos a seguir.
O Filme
e a Série (2016)
O Exorcista é um filme dirigido de maneira didática: os planos abertos e retos revelam o que está acontecendo, encaixam tudo de maneira clara. Quando o personagem olha para uma direção e expressa uma reação negativa, a câmera em seguida mostra para onde ele estava olhando. Não há ambiguidade ou criação de suspense, como se faz com a não-revelação ou não-revelação imediata, respectivamente.
A verdade é que Friedkin, o diretor, não pensava no Exorcista como um filme de terror. Ele não queria provocar medo, e sim contar essa história que o fascinou, ancorado numa reflexão sobre o bem e o mal. O que é bem e o que é mal. outras reflexões e mistérios da fé. Tendo construído uma carreira como documentarista, a linguagem direta e explicativa na escolha da direção fazia sentido pela sua bagagem e pela sua pretensão.

A propósito do tema, esse é inserido em diversas camadas no filme, o que é muito interessante. No início de filme, a mãe de Regan, Chris, está caminhando para casa quando um grupo de crianças passa correndo, trombando nela. Estão fantasiadas para o halloween, e Chris ri para elas. Reconhecemos a inocência das crianças e daquelas fantasias que são uma brincadeira. Em seguinda, Chris olha para o outro lado da rua, por onde duas freiras estão passando. É a primeira cena em que a dicotomia entre bem e mal e sua tênue linha que divide os dois na nossa realidade, começa a ser provocada.
O tema vai aparecer, novamente, no personagem do Padre Karras, que tem uma relação que intercala entre cuidado e abandono com a mãe; e entre fé e descrença com a religião. A personagem de Chris, enquanto no filme aparenta ser uma mãe presente, mas que trabalha fora, já na série de 2016 é descrita como uma mãe ausente que, por conta da sua distância, foi a causa de Regan brincar com o tabuleiro de Ouija, que a conectou com Pazuzu, e uma mãe egocêntrica que usou o sofrimento da filha para ficar famosa escrevendo um livro sobre a possessão. No decorrer da série nos reconectamos com o lado mais cuidadoso e gueirreiro de mãe-solo da Chris que conhecemos no filme, quando ela justifica que só escreveu o livro porque elas precisavam do dinheiro para se sustentar; além de relembrar tudo que fez para cuidar da filha possuída.
Evidentemente a série teve mais espaço para desenvolver cada personagem e destrinchar os temas, mantendo e deixando mais clara a discussão entre bem e mal, responsabilidade individual, fé e etc, trazendo a dicotomia até para o padre mais velho – que seria um equivalente ao Padre Merrin na narrativa – que é um dilema que não recai sobre o Padre Merrin que é, em Exorcista, um personagem verdadeiramente direito, que começa a filme com a premonição sobre a sua missão, e chega à casa de Regan sob um grito de temor do demônio, pronunciando seu nome.

O personagem de Burke incorpora essa dicotomia toda em uma sequência: está ficando bêbado, e diz ter encontrado um pêlo pubiano na sua bebida. Ninguém se engaja nessa conversa. No restante da festa ele vai incomodar um trabalhador suíço, sugerindo que o homem é um alemão nazista, até fazê-lo perder a paciência e iniciar uma briga. Ele causou o mal porque estava bêbado e canalizou algo de seu caráter? ou estava sob influência do satanás – porque Regan colocou um pêlo endemoniado na sua bebida?
Por fim, a discussão do bem e do mal está presente nos diálogos (um deles entre os padres, que só foi incorporado na versão de 200), e principalmente na dicotomia incorporada pela própria Regan, que é a pré-adolescente singela, de uma doçura teatral, mas sincera, que é destruída aos poucos por sua possessão pelo próprio mal. Uma inocência que é destruída pela maturidade repentina.
Esse desejo pela maturidade, que começa a se anunciar na conversa com sua mãe – que pergunta porque ela lê as revistas de celebridade, e diz que não gosta da foto de Regan na capa, pois ela parece “muito madura”. – quando Regan diz explicitamente que não se importa que a mãe esteja se relacionando com Burke (diretor do filme), e que “ouviu por aí” que eles estão juntos. Ela pode estar falando da revista ou dos cochichos do Pazuzu, que mais pra frente a fará jogar Burke pela janela. Na consulta com o médico, Regan diz para o médico “manter os dedos longe da porra da sua buceta”, hoje em dia, com o nível de esclarecimento que estamos, como conjunto, a respeito de abuso, já desconfiaríamos do que o médico estava fazendo sozinho na sala com ela, para que Regan dissesse isso.
No fim das contas, poderia-se enxergar O Exorcista como um Coming of Age Catastrófico, em que uma pré-adolescente sofrendo com a separação dos pais e sua própria puberdade, e possíveis abusos, tem surtos psicóticos altamente sexuais. (?)
Na verdade, é mais ou menos isso que os médicos defendem, ao finalmente esgotar as possibilidades de doença física. O curioso é que é um médico que sugere o exorcismo, aparentemente uma prática pouco conhecida fora da religião católica – não algo que podemos ver na TV aberta em qualquer canal religioso, como hoje em dia. Claro que, com uma arrogância insuportável, declara que tem um efeito psicológico, não funciona “pela razão que eles acham que funciona”. A esse ponto do filme, Friedkin já construiu uma imagem dos médicos suficientemente incompetente, além de mostrar para o espectador eventos sobrenaturais sem nenhuma ambiguidade (objetos voando, sons no porão), para que o público não esteja aberto à possibilidade de psicose.
A própria Chris, que testemunhou acontecimentos sobrenaturais, fica incrédula com a sugestão do médico. O Padre Karras também demora um pouco para acreditar na possessão (ele próprio é o dilema entre mente e fé, por ser um padre psiquiatra, que também acaba por ser quem dá credibilidade à história, por ser supostamente neutro por isso). Chris encontra um crucifixo embaixo do travesseiro de Regan e desconfia que alguém a fez acreditar em religião/possessão. Inclusive, passamos o filme todo sem saber como aquele crucifixo surgiu alí. Mas essas desconfianças e explicações científicas não são usadas, no filme, como possibilidade de ambiguidade, como é a base de O Exorcismo de Emily Rose, por exemplo.
A época em que o filme foi lançado justifica seu sucesso imbatível de bilheteria, mas isso não significa que a temática se desgastou. A série, que se passa quando Regan é adulta, mas que repete as temáticas e desenvolve personagens correspondentes à possuída e aos dois padres, é uma prova de que a história ainda funciona.
O ponto positivo de se assistir à série é que ela foi feita para ser terror. O suspense é acertadamente construído, e o espectador não começa a obra já sabendo de tudo; somos mantidos no escuro, sabendo apenas aquilo que a protagonista sabe. Outras questões interessantes e atuais são o feminismo e anti-masculinidade, na figura das freiras que operam exorcismos com técnicas não-violentas; o padre gay; e as várias personagens mulheres redondas.
o filme envelheceu mal ou ainda dá medo?
Na época de filmagem, 1972, o Vaticano emitiu um documento sobre o diabo, em que o Papa afirmava a presença real do diabo na terra. Isso deixou a equipe do filme com medo a ponto de interferir nas filmagens. Os tempos definitivamente eram outros…
Fosse lançado hoje, não sabemos se causaria vômitos e desmaios. Alguns efeitos e escolhas ficaram datados.
A revelação do rosto de Pazuzu, de maneira descontextualizada (fundo preto) nas cenas em que as personagens estavam vendo-o ou sendo assombradas por ele, é um dos recursos didáticos que, pela forma que é montado na cena e pelo tipo de maquiagem, estaria ultrapassado hoje em dia – e provavelmente quem o assistir pela primeira vez sem estar imerso em toda a aura, estranhará essas inserções.

No mesmo sentido, a inserção de uma imagem de uma estátua da Virgem Maria, também descontextualizada por não sabermos de que igreja se trata, só aparecer em um take e sumir daquele momento da narrativa, foi uma escolha que combinou com a estrutura do filme, mas é estranha. Curiosamente, foi adicionada na versão de 2000.
Além do imagético, um aspecto do roteiro que aparece repetidamente e de forma tangencial, que é a questão do vandalismo nas igrejas próximas, atualmente causaria um estranhamento por não ser devidamente explorado, ficando a segundo plano como criador de uma atmosfera.
Contudo, considero essas detalhes uma parte ínfima do filme, que criou efeitos especiais práticos que são usados até hoje. Objetos sendo atirados de um lado para outro de cômodos, móveis andando sozinhos, pessoas levitando e sendo atiradas, a fumaça do hálito de frio que sai da boca dos personagens no quarto, estão entre as coisas que foram criadas com efeitos práticos, e tinham que ficar perfeitas no ato, sem poder recorrer a recursos de pós-produção.
Movimentos de câmera inovadores que eram impossiveis de fazer com uma camera enorme e pesada, hoje são feitos com cameras leves e steady-cams – como a cena em que a câmera “cai” junto do homem que foi atacado por Regan

A maquiagem de Regan, que na minha opinião continua atual, hoje provavelmente seria feita ou retocada na pós, assim como o envelhecimento de Max Von Sydow, que na época tinha apenas 42 anos, mas deu vida ao Padre Merrin, um idoso.
A voz do demônio, que atualmente certamente seria feita com efeitos sonoros, talvez por cima de uma voz humana, foi feito pela atriz Mercedes McCambridge, a base de muita bebida, cigarro, e outras formas de exaustão e distorção para chegar à voz do pazuzu.
Talvez a parte mais problemática seria a do giro de 360º, que precisou ser feito com um boneco. Na minha percepção foi tão bem feita que dá para passar despercebido, como tudo foi feito com extremo perfeccionismo no filme.
Independente das limitações tecnológicas, ainda é amplamente considerado o mais terror de todos os tempos – e duvido você escutar a música tema sem sentir um calafrio.
referências
¹Raising Hell: Filming the exorcist e Faces of Evil: The Different Versions of The Exorcist, documentário em três partes de Laurent Bouzereau
²The Curse Of Exorcist – !E HOLLYWOOD TRUE STORYS https://www.youtube.com/watch?v=Zg7mYKH6qNU
The Exorcist IMDB – https://www.imdb.com/title/tt0070047/

