Dreamkatcher (2020)

Sinopse: Tentando se livrar dos pesadelos noturnos, um garoto rouba um filtro-dos-sonhos de uma misteriosa vizinha, colocando sua família sob o perigo de uma entidade sinistra.

O filme conta com dois queridinhos do terror nos últimos anos; é difícil ver uma produção de terror comercial com boa visibilidade em que eles não estejam: o Henry Thomas (Maldição da Residência Hill, Doutor Sono, Gerald´s Game, Ouija – origem do mal, Nightmares and dreamscapes) e Lin Shaye (de Sobrenatural, The Grudge, Ouija – o jogo dos espíritos, Ouija – origem do mal, the black room, e mais um bocado). Parece que são sempre chamados para dar vida a personagens semelhantes: no seu trabalho recente de mais visibilidade, Residência House, Thomas também foi um pai, bondoso e querido, como em Dreamkatcher (com um desvio forte pro pai pedófilo em gerald´s game). E Lin Shaye repetidamente é uma conhecedora do sobrenatural, sendo a personagem que vai ligar os pontos da trama para os outros e/ou salvar todo mundo.

Curiosidade: Henry Thomas também estrelou, quando criança, como o Elliot de E. T. O Extraterrestre

Eles sempre entregam o que o personagem parece pedir, porém é uma zona de conforto pro espectador que não acho interessante… Já existem diversos clichês que não se arrisca fugir, num filme de terror, e torná-lo ainda mais previsível reciclando personagens, empobrece a experiência. Quando a Shaye aparece, você já espera pela hora em que ela vai explicar tudo. Nessa era de obras seriadas, parece senso comum a repetição do personagem para cativar o público.

Mas a verdade é que ver um ator conhecido dando vida a outra pessoa é legal demais. Faz parte da razão de buscarmos os atores. Recentemente vi o Thor, em que Natalie Portman é uma cientista fofa, ligeiramente insegura, e é um exercício de percepção fundamental buscar os traços humanos que a fazem transparecer alguém tão diferente: a risada dela é de outra pessoa que nunca vimos. Falando em risada, Ellen Page em Super se transforma em uma moleca singular nova, distinta de todas molecas singulares que ela já fez – e com um riso esquisitíssimo.

Dispositivos reconhecíveis, como o jump scare (quando há um som alto junto com alguma mudança brusca na tela), fazem parte do universo de terror e nem por isso deixam de assustar e enriquecer a experiência, ainda mais quando são feitos de forma criativa. Outro signo que contém muitos significados é a longa viagem na estrada:

Um carro, sozinho, viaja para longe, numa estrada rodeada por nada além de quilômetros de mata fechada. Num terror, já sabemos que isso é anúncio de um isolamento perigoso para os personagens. Pra muitos espectadores, essa cena de abertura do filme já dá um frio na barriga.

Em Dreamkatcher, além desses sentidos – que têm sido usados sem risco de desgaste enquanto houver alguma inovação, por dezenas de filmes como the hole in the ground, midsomar, vende-se esta casa, para dar exemplos recentes – há um primeiro que salta aos olhos: é uma cópia da cena de O Iluminado; apesar de ter sua própria identidade na fotografia.

A referência ao Iluminado não é gratuita, como veremos no decorrer do filme, já que o garotinho vai matar a família a machadadas, da mesma forma que um outro garotinho fizera na mesma região – assim como acontece no Iluminado de Stanley Kubrick.

Porém, as semelhanças param por aí. Apesar de dreamkatcher começar com bastante segurança, prometendo um filme sinistro e redondo, aos poucos ele perde a mão.

O arco da relação entre o garoto e sua madrasta é desenvolvido de forma orgânica, verossímil e satisfatória. Eles se aproximam, até o garotinho ter de admitir que gosta dela, e a madrasta ter de admitir que deseja ser uma mãe para ele.

A assombração, que aos poucos vai conquistando o garoto, que precisa do dreamkatcher, de tempo e da aceitação do garoto para dominá-lo, também é crível e consistente.

Um dos problemas é que o filme não uma conclusão justificável. O garoto sair a deriva pela rua e ser pego por policiais, sugerindo que ele iria matá-los em seguida, é aceitável. Contudo, a madrasta consegue fugir e por algum motivo enterra o dreamkatcher, algo que ninguém a aconselhou a fazer e a própria Shaye-sabedora-das-coisas disse que não tinha como destruir aquilo. Se ela queria tirar das mãos de outras pessoas, não tinha porque enterrar tão superficialmente. Depois disso, ela apenas some do filme, o que é frustrante. Essa separação dos dois, cada qual seguindo seu caminho, depois de uma narrativa inteira para construir um vínculo, parece um remendo num filme consistente que alguém arrancou o final.

A cena mais triste, entretanto, é a – já clássica cena em – que a personagem de Shaye vai esclarecer o que está acontecendo. O diálogo começa de forma gritantemente forçada, e se tropeça para chegar ao fim.

Esses remendos todos em torno de um centro sólido, embelezado por uma fotografia bela e sem muita razão, tiram a força de um filme que, apesar de tudo, rende um bom entretenimento numa noite descontraída.

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