The Night Clerk, antidepressivos e urubus

Minha vida passou por fortes reviravoltas desde a última vez que escrevi para o site. Quando comecei, eu estava animada para upar uma crítica por dia, já que eu assisto pelo menos um filme de terror por dia. Mas depois de alguns textos, ali no final de dezembro pro início de janeiro, descobri que sou autista. Depois de 30 anos de vidinha confusa. Desde lá, passei por duros dois meses revivendo toda a minha memória em busca de pistas que reforçassem o diagnóstico, em busca de paz para algumas dúvidas eternas, em busca, como sempre, de respostas.

Nesse tempo, não fiz mais nada. Foi desgastante, desesperador, tudo que eu li e assisti foi para entender mais sobre autismo e sobre mim mesma. Cheguei à possibilidade do diagnóstico por conta própria, por pesquisa própria, e levei ao meu psicólogo, que confirmou a probabilidade de eu ter encontrado um transtorno pra chamar de meu. Imediatamente, iniciei a avaliação oficial com uma neuro.

Processo esquisitíssimo e desconfortável. A moça não quis escutar todo o relatório que eu tinha feito, e optou por fazer testes cognitivos e duas entrevistas com a minha mãe. Na época eu acreditava, evidentemente, que era assim que se fazia a avaliação – confiei naquela profissional em que eu depositei a pergunta mais importante da minha vida. Ao final de 6 longuíssimas semanas, ela disse que tinha outros questionários que tinha pensado em fazer, mas que não era necessário. Eu estou no espectro autista. Depois disso, só precisávamos de um último encontro para que ela me repassasse todas as suas impressões sobre mim, me entregasse um laudo oficial, e me indicasse profissionais para dar prosseguimento ao meu tratamento para depressão e ansiedade, agora sob uma nova ótica.

Era para esse encontro ser na semana seguinte, mas aconteceu o carnaval e, de repente, ela já estava me enrolando há 47 dias. Quando finalmente me deu retorno, por videochamada, enviou-me um relatório que parecia um trabalho de faculdade daqueles que a gente faz na noite anterior, descrevendo as nossas sessões e admitindo, ao final, que não chegou à conclusão definitiva nenhuma pois usou testes que ela sabia que não demonstrariam nada, e que devia ter usado uma outra abordagem avaliativa, que, para minha surpresa, existe e, segundo ela própria, seria mais adequada para pessoas adultas.

A fortuna que eu gastei para fazer essa avaliação não me enfurece apenas pelo dinheiro perdido e sim porque, mais uma vez, sou enganada por alguém que faz um serviço de-qualquer-jeito, e que eu tive suspeitas ao longo do processo de que ele não seria suficiente para mim, já que ela não me escutava, mas preferi ficar calada e confiar na profissional. Como sempre, eu confio em qualquer pessoa antes de mim mesma. Até nas pessoas-urubus, que parecem bem intencionadas mas se alimentam indiferentemente da nossa não-vida. Como me disse um amigo: eu leio muito mal as minhas relações.

O resultado disso é estar, mais uma vez, sem um reconhecimento externo para a totalidade da minha esquisitice, como todos os testes vocacionais que respondi e voltaram inconclusivos. Como todos outros diagnósticos de saúde que já experimentei, desde gastrite até miopia, tudo é incerto. Como todos os textos que já escrevi, sobre mim mesma, parecem uma pintura abstrata desafinada. Mais uma vez um profissional que disse que me ajudaria, me deixa na mão. E eu não sei andar sozinha.

Lembrar que sou autista me acalmava, frente às dificuldades da vida, que antes me colocavam em posição fetal e autojulgamento interminável. Meu pessimismo sobre mim mesma não mudou muito, mas desenvolvi uma paciência que me permite evitar alguns surtos e crises. Não me impediu de chorar copiosamente semana passada quando tentei lavar a cozinha e, sem sucesso, a deixei mais imunda. Mas, no geral, me ajudou bastante a não ter fortes crises depressivas.

Agora, venho duvidando de mim mesma. Esses 47 dias que passei me apropriando da minha identidade, deficiente-e-empoderada, parecem um sonho distante, um coração partido. A cadeira do cinema que eu tinha sentado pensando que era minha, derreteu debaixo da minha buzanfa. Meu lugar no mundo evaporou.

Imagino que muita gente esteja sentindo algo assim, dada a dimensão pandêmica da pandemia. Nosso novo messias do utube, Átila, disse que a rotina nunca mais será a mesma, que a organização social mudou de vez. Bem… enquanto podemos permanecer em negação, vou escrever sobre o filme que começou a me tirar dos meus dois meses monotemáticos supracitados: The Night Clerk, ou “o recepcionista noturno” – não tem título brasileiro.

O recepcionista de um hotel instala câmeras nos quartos dos hóspedes para observá-los e aprender formas de se comunicar com as pessoas. Assim, ele vê um assassinato e se envolve na investigação. Devo algum sentimento positivo a essa obra, já que ela me fez voltar a assistir filmes de suspense/terror, tendo me chamado a atenção por ter o protagonista autista. Mas, como unidade filmica, é uma merda.

O ritmo é totalmente desestruturado, alguns momentos de suspense quase não conseguem envolver o espectador, dada a totalidade lenta e preguiçosa do roteiro e do encadeamento das ações.

A primeira vista devo admitir que quis taxar o personagem de estereotipado, uma vez que ele não corresponde a minha própria experiência do espectro; contudo, num olhar pós filme mais cuidadoso, acredito que o arco é muito bem desenvolvido.

Instalar câmeras nos quartos do hotel parece inverossímil já que, mesmo sendo muito “sem noção” como somos, os limites da legalidade são claros, e essa escolha parece extremamente exagerada para a própria finalidade. Porém, a relação da personagem com a mãe, que dá aval para tudo que o garoto faz, e acomoda todos os seus desejos, torna essa escolha compreensível: o personagem acha que faz algo aceitável – que ele sabe que é contra a lei, e por isso esconde de seus colegas e superiores. Claro que, ainda assim, soa como uma forçação de roteiro para dar liga à história.

Afora esse detalhe complicado, os traços comportamentais do garoto e a sua ingenuidade são bastante condizentes com sua condição neurológica, e a conclusão de seu arco é interessante, apesar de parecer ser a única razão de existir do filme. O grande plot twist é que o garoto consegue perceber que foi enganado, tem a inteligência de colocar os seus interesses à frente dos interesses da garota que ele estava protegendo e, assim, entregar as fitas do assassinato à polícia.

É difícil obter distanciamento suficiente do filme para afirmar categoricamente, mas me parece um filme de personagem (uma categoria do drama que consiste no desenvolvimento psicológico de um ou mais personagens interessantes, que conduzem a trama a partir dos seus processos internos), que tentou se disfarçar de suspense, mas esqueceu de colocar o suspense.

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