O POÇO e a mediocridade da crítica social feita às pressas

Estou chocada com a quantidade de pessoas impressionadas com essa nova produção da netflix. Eu assisti ao filme já com as expectativas baixas, uma vez que alegorias simplistas não me agradam como dispositivo narrativo ou estético; contudo, esperava que poderia ser bem surpreendida, afinal há muitos filmes bons que começam parecendo óbvios demais, e aos poucos revelam camadas de reflexão e conhecimento crítico.

Definitivamente não é o caso desse filme.

Assistindo ao Poço, é possível desconfiar que o autor dessa obra não tenha muita noção do assunto sobre o qual fala, dada a superficialidade do todo. Mas não precisamos ficar na suposição, o próprio demonstrou sua falta de aprofundamento no tema, em entrevista sobre:

“Certamente achamos que deve haver uma melhor distribuição da riqueza, mas o filme não é estritamente sobre o capitalismo. Pode haver uma crítica ao capitalismo desde o início, mas mostramos que, assim que Goreng e Baharat experimentam o socialismo para convencer os outros prisioneiros a compartilharem de boa vontade sua comida, eles acabam matando metade das pessoas que pretendem ajudar”.

Galder Gaztelu-Urrutia

Para mim, essa fala é um retrato de um nicho muito específico dos nossos tempos: pessoas que viraram críticas da sociedade porque foram contagiadas pelo fluxo de revolta e troca de informações que tomou conta da nossa realidade nos últimos anos (ou porque está na moda – mas tendo a ser mais otimista do que isso), e não tem noção do que são as estruturas sociais, e os sistemas como capitalismo e socialismo, por exemplo.

Além de não se posicionarem contra o capitalismo enquanto sistema, a única coisa que sabem sobre “socialismo” é que é ~uma boa intenção que vira ditadura~.

Reforçando em entrevista que não há nada no filme além do que está exposto – esfregado na cara e dolorosamente explicado nos diálogos – o diretor repete o que poderia ser a sinopse do filme, ou o roteiro, ou o filme todo; a única mensagem e intenção que poderia ser resolvida em um curta metragem de 10min:

“O Poço quer colocar o espectador em uma posição que o faça pensar em como ele se comportaria em certas situações em relação ao que está acontecendo no mundo real. O que você faria estando nos primeiros e nos últimos níveis? Nós não julgamos, mas fazemos o questionamento e deixamos para o público a decisão”.

Galder Gaztelu-Urrutia

Eu li, em algum lugar, alguém defendendo que esse filme é muito atual, uma vez que mostra como as pessoas são más, não são solidárias e pronto. E que isso é o que estamos vivenciando durante a pandemia, já que as pessoas fazem estoque de itens que não precisam, sem pensar no outro, saem às ruas sem se preocupar com disseminação do covid, etc. Eu acho que esse tipo de pensamento está condizente, mesmo, com a lógica do autor de O Poço.

É evidente que ele acredita nessa mesma tese, já que nenhum dos seus personagens é solidário – o que chega mais próximo disso é o protagonista, que em todas as suas escolhas tem motivos egoístas (com exceção do final do filme, o que vou explicar em seguida). Contudo, essa é outra face da problemática dessa enxurrada de gente que só se movimenta pelas redes sociais, não tem contato com as pessoas que lutam, militam, tentam mudar o mundo. É um nicho de pessoas despolitizadas que querem ser politizadas até a página dois, que não buscam se aprofundar (talvez porque é confortável reclamar da sociedade sem acreditar que é possível viver em um mundo mais justo, já que assim não se têm responsabilidade de tentar nada). São os críticos sociais privilegiados dos nossos tempos.

E, sobre solidariedade: para derrubar essa frágil tese da maldade humana, basta que olhemos para todas as pessoas que estão abrindo mão da sua segurança e conforto para ajudarem àqueles mais vulneráveis durante a pandemia.

Para além do discurso pobre do filme, como mencionei de passagem, os diálogos são expositivos, ou seja, explicam tudo que está acontecendo, e roteiristas com mais habilidade não incorrem nesse tipo de dispositivo preguiçoso, optando por mostrar o mundo que eles construíram – afinal, é cinema, não é literatura, podcast, contação de história, etc.

Sobre o final do filme, o próprio diretor diz o seguinte:

“Para mim, esse nível mais baixo não existe. Goreng está morto antes de ele chegar, e essa é apenas sua interpretação do que ele sentiu que tinha que fazer”.

Galder Gaztelu-Urrutia

Ok, então o protagonista morreu, e toda a sequência com a menina-criança não aconteceu na linha de tempo do filme, somente na cabeça do protagonista. Porém, em seguida o diretor continua:

“No final, eu queria que fosse aberto à interpretação, se o plano funcionou e os superiores se importam com as pessoas na cova.”

Galder Gaztelu-Urrutia

…quê? isso que acontece quando a pessoa não decide qual a história do filme. Até em finais abertos, o autor tem algum significado para ele mesmo, e pistas na história que indicam um ou mais caminhos.

Se o cara está morto e a garotinha não subiu na plataforma, o final sobre a reação do nível zero não é aberto.

“Na verdade, filmamos um final diferente da garota que chega ao primeiro nível, mas a eliminamos do filme. Vou deixar o que acontece com a sua imaginação.”

Galder Gaztelu-Urrutia

É, pois é. Se enrolaram com o roteiro e colocaram qualquer coisa – uma criança que viveu sei lá quantos meses sem comida escondida embaixo de uma cama, mas que na verdade é o sonho do cara, mas que nada verdade é um final aberto, mas que na verdade tudo é alegoria então pode qualquer coisa.

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