The Darkest

The Darkest (2019) Sinopse: “Uma barraca nas montanhas, no meio do nada. Era pra ser um fim de semana romântico na natureza. Mas quando caiu a noite, tornou-se um pesadelo. Eles não estavam sós.”

Esse filme francês, apesar de se aproximar do cinema de terror americano, com uma trama (a princípio) batida, traz fortes marcas do cinema francês no ritmo, na estética e no desenvolvimento do enredo. Assim, muito da singularidade do filme se revelou, pra mim, na quebra de expectativa do que ele seria. Apesar de não ser um filme impactante, é preciso, seguro. Talvez mais um contraste entre terror americano e francês, risos.

A direção do filme, quase sempre usando planos de narrador – ou seja, sem assumir a visão dos personagens com a câmera o tempo todo – foi o que mais me chamou atenção. A problemática da luz é o grande desafio da trama, no meio de uma floresta, sem lua, as baterias das lanternas e dos celulares vão acabando, os personagens usam também um esqueiro e o flash de uma câmera para enxergar. Sempre só vemos o que está iluminado pela fonte de luz dos personagens; o que é interessante é a escolha da direção de filmar os momentos de angústia, de tentativa de acender alguma luz, em planos abertos. Enquanto filmes de suspense abusam dos planos fechados ou POV para transmitir o desespero, e nos fazer reféns do escuro junto das personagens, em The Darkest o suspense funciona sem esse artifício. Acho particularmente confortável, porque exige menos tensão para assistir, menos esforço; além disso, somos presenteados com cenas esteticamente belas – e, principalmente, temos a leitura adicional da solidão do casal. Sempre uma pequena chama de luz engolida pela escuridão.

O enredo, como já citei, não soa artificial/forçado em nenhum momento. As diversas fontes de luz que surgem ao longo da noite do casal, que contém cada qual a sua forma de transmitir o terror, entram na história de maneira muito verossímil. Sobre o desenvolvimento da trama, é belamente ambígua. Quando o casal descobre que está sendo perseguido pelo filho que ela abortou, o Homem, professor de física, oferece a explicação dos universos paralelos. Entendemos que, em outro universo, o garoto já com 8 anos, que não fora abortado pela Mulher, pegou-a na cama com o cara com quem ela trai o marido, e matou os dois. A dor do garoto era tão grande, que abriu essa brecha entre os dois universos. Quando a Mulher faz um gesto de carinho para ele, a brecha se fecha. O Homem sugere: ele só precisava de um gesto de perdão da mãe. Ele, contudo, não sabia que o cara na cama, o morto do outro universo, era o amante da esposa. Ele deduziu que era ele.

Como a hipótese do garoto matar duas pessoas apenas por encontrá-las na cama me parece extremamente absurda, e com essa informação adicional de que somente a Mulher sabia quem era o cara na cama, creio que está evidente a ambiguidade de que tudo aquilo que aconteceu, os assombros, eram manifestações do sentimento de culpa da Mulher.

Já o Homem, que também a trai com uma colega de trabalho, não sente culpa ou remorso. É uma visão interessante dessa história, mais interessante do que aceitar que é um roteiro anti-aborto e misógino.

Sobre a construção de personagens, sinto que o primeiro ato foi um tanto corrido, apressado em estabelecer as características do casal, que começa cada um em seu universo, traindo um ao outro com outras pessoas, e só se encontram na hora de ir para a trilha. Começamos o filme odiando os nossos protagonistas, que não são nada carismáticos. Funciona como um recurso para que entendamos porque eles se odeiam.

Quase desisti do filme porque estava achando o primeiro ato cansativo, não me envolvi com as personagens e elas só ficavam brigando. Mas aí rolou a minha primeira cena favorita: O homem fica impaciente com a mulher que demora para calçar as botas para entrarem na trilha. Ele não diz nada, só anda até o incio da trilha e volta, repetidamente. Ela coloca as botas calmamente, sem nem olhar pra ele; e o plano se dá em tempo real, sem usar de mecanismos para demonstrar passagem de tempo. A gente espera junto.

Leave a comment