Marianne

Marianne (2019) Sinopse: Emma, uma famosa escritora de terror francesa, é forçada a voltar à sua cidade natal quando a bruxa que a assombra há 15 anos, sua personagem Marianne, reaparece. Série da Netflix.

A série é excelente em termos de direção, fotografia, arte, trilha, roteiro… Uma produção que realmente vale a pena ser uma série.

As personagens, Emma e seus amigos, suas relações mal resolvidas, seus dramas, estão sempre se desenvolvendo o suficiente para manter o espectador interessado nos personagens, mas de maneira sutil a manter a trama do terror como a mais importante. Diferentemente de outras séries de suspense, que acrescentam longos hiatos de não-suspense, em geral flash-backs de um capítulo inteiro, para criar engajamento com os personagens. Marianne é terror o tempo inteiro, e é assustador.

Se, inicialmente, a iluminação de duas cores, as sombras, toda a ambientação parece que causa um afastamento (porque dá a sensação de ser construída artificialmente como uma cena de terror, como se fosse mesmo alguém lendo um livro de contos dentro de outro filme) – a medida que assistimos e nos envolvemos, somos sugados para aquele mundo que parecia amendrontador demais para ser verdade. Agora é amedrontador e é de verdade. Difícil é não ser capturado pelo clima da série.

O enredo de Marianne, como vamos desvendando ao longo da minissérie, consiste na história de uma escritora que teve um contato sobrenatural com essa bruxa, já morta há centenas de anos, que agora habita seus pesadelos e força a escritora a publicar livros sobre ela mesma, Marianne. Com a publicação das histórias, o que a escritora escreve se concretiza no mundo.

Marianne proporciona uma reflexão muito contemporânea sobre o poder da arte, e sobre a responsabilidade da comunicação, que discutimos à exaustão cotidianamente. Mas, esse caso, creio que podemos pensar especificamente no terror, ou naquilo que, como diz minha mãe “faz mal pro espírito!”.

A gente fala muito das fake news, dos programas policiais sensacionalistas, dessas distorções todas da realidade que são bombardeadas sobre nós, para covencer-nos de enxergar o mundo de determinada forma. Não vamos negar que funciona muito. Mas o alcance da arte é outro. Mexe com mais do que o racional. Mexe com outra coisa…

Assim, eu me pergunto o papel e a responsabilidade do artista, em especial no cinema, na produção da realidade, em termos de contribuir com a violência que assola a nossa vida. Porque a gente pode falar do discurso machista e racista nos filmes, a gente pode falar de representatividade das individualidades… E a gente pode falar da temática da violência.

Existe uma infinitude de filmes de ação sobre justiceiros, sobre máfia, sobre assassinos… sobre que realidade é essa que eles falam? É uma realidade tão representativa do nosso mundo assim para falarmos sempre sobre? Existe outro mundo para a gente retratar, não existe?

Existe a representação da violência como denúncia. Existe a representação da violência como fetiche, à la Tarantino.

O quanto esses filmes contribuem para a continuidade da nossa percepção da banalidade da vida, da crueldade, da falta de perspectiva que é a própria alma do capitalismo para nos fazer acreditar que outro mundo não é possível?

Aquecimento global, Bolsonaro, fascismo.. por que fazer terror num momento como esse? Minha mãe, sempre que via eu e meus irmãos assistindo filme de terror, ficava tentando nos convencer de parar, repetindo “isso faz mal pro espírito!”.

Meus colegas que escrevem pra cinema frequentemente reproduziam histórias que eles assistiam, sobre tráfico, serial killers, e coisas assim que eles gostavam de consumir. Mas eu acredito que existem histórias mais legítimas para serem contadas. Na minha humilde opinião de quem quer consumir muito terror e produzir muito terror, eu acredito que a gente pode escolher temas e escolher formas de contar, que não tratem a violência como algo comum.

O terror é necessário porque as sombras existem. A gente pode falar sobre elas, produzir catarses e conexões entre as pessoas, a gente pode questionar elas. Só não vejo porquê almejar a criação de novos pesadelos no mundo.

Marianne, enfim, vale muito a pena. O que entristece, somente, é terem escolhido uma atriz fraca para a protagonista. Mas a personagem, Emma, é, apesar disso, engajante.

O arco da protagonista e como descobrimos de onde ela partiu e pra onde vai, aos poucos, contribui para o suspense e se constrõe junto dele; o que é um recurso relativamente comum, mas que raramente se revela de maneira original, como aqui foi o caso.

Marianne dá aquele arrepio na nuca, nos conquista e intriga, mexe com algo enterrado no fundo do peito ao misturar a beleza com o horror.

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