Char Man (2019). Sinopse: Dois amigos visitam a cidade de Ojai na Califórnia, com a intenção de fazer um documentário fake sobre o famoso Vampiro de Ojai. Contudo, seus planos mudam, e coisas bizarras começam a acontecer, quando eles chegam lá e descobrem uma outra lenda local: o Char Man. Disponível no PopCorn Time.
Me impressionei com o cuidado que o filme trabalhou a veracidade da trama e do uso do Found Footage – o grupo descobrindo sobre o Char Man ao mesmo tempo que o espectador, deixa a investigação filmada muito mais natural, além de outros elementos que justificam a câmera ligada o tempo todo, como o narcisismo dos personagens. – Mais do que criar cenas inusitadas e assombrações mirabolantes, a consistência da trama é o que captura.
Os primeiros 26 minutos de filme (podia ter sido só 15, quase que eu desistia), apresentam os 2 amigos, Eric e Cameron, e o cinegrafista que eles contrataram, Andy, como homens que, como é comum na construção do gênero masculino, não conseguem se comunicar uns com os outros. Cito a segunda cena do filme:
Cameron chega com um carro caro. Eric reclama: "Espero que Andy não goste de comer, porque não vamos ter como comprar comida". Todos entram no carro. Cameron pergunta quando pode receber o dinheiro para repor o aluguel do carro.
O desconforto começa aí, e cada vez se agrava mais. Os dois amigos não conseguem ser diretos um com o outro. Cameron repetidamente se mostra um cara que quer ser engraçado o tempo todo às custas do amigo, querendo demonstrar que não leva nada a sério. Eric se chateia, fica com raiva e não conversa.
Essa falta de comunicação com sinceridade possibilita uma transição minuciosa na trama: quando eventos paranormais (ou não?) começam a acontecer, cada cara acha que o outro está sacaneando, fazendo pegadinha. E não adianta todos dizerem que não, porque eles não acreditam uns nos outros. Esse desenrolar na trama só é possível com um grupo inteiramente de homens.
Ao longo do primeiro ato diversos aspectos da masculinidade tóxica, em especial da insegurança, são jogados como pistas para justificar todas as atitudes dos personagens (assim que chegam à casa, ficam desconfortáveis por só ter uma cama e um sofá, e engrossam a voz pra dizer que tem que dormir “pé com pé”), que permanecem numa situação de risco, acabam isolados na cidade, por ficarem reféns de si mesmos.
O orgulho masculino (aquele que não permite mostrar fragilidade, que tem medo de estar sendo vítima de uma pegadinha da cidade e cair, aquele que não pode arriscar ser feito de bobo), os impede de traçar um plano B quando o terror começa a dar as caras.
Não só de orgulho masculino se monta os personagens, mas também do narcisismo e da completa falta-de-noção-do-que-está-fazendo-e-achar-que-tá-arrasando, típico do homem branco mediano; Justificam todo o restante das escolhas dos personagens, o que me faz pensar que esse é não só um terror bem feito, que com a simplicidade de elementos causa uma tensão enorme, mas também uma tese sobre o terror da masculinidade.